A Última Gota
Recentemente vi uma
mulher andando com um cachorro preso à coleira. Mude isso. Vi uma mulher
puxando um cachorro com uma coleira. O dia estava quente, terrivelmente quente.
O cachorro parou, de todo. Ele caiu, de barriga para baixo, na grama molhada,
trocando a calçada que estava pegando fogo por um gramado fresco.
A mulher puxava e
puxava. Teria tido mais sucesso se estivesse puxando um trailer estacionado.
A idéia de
levantar e caminhar havia sido abandonada pelo cão, que permanecia esticado no
chão.
Ele não foi o
último a fazer isso. Você já atingiu seu ponto limite?
A culpa é do seu
chefe. "Precisamos que você aceite mais um caso.
" Do seu
cônjuge. "Vou chegar tarde mais uma noite nesta semana.
" De seus
pais. "Tenho mais um serviço para você.
" De seu
amigo. "Preciso só de mais um favor.
" O problema?
Você cuidou, tolerou, fez, perdoou e aceitou até não restar mais nenhum
"mais um" em você. Você é um filhotinho cansado. Caiu para valer.
Quem se importa com o que os vizinhos pensam. Quem se importa com o que o
Mestre pensa. Que eles puxem a coleira que quiserem; não estou dando nem mais
um passo.
Mas, ao contrário
do cachorro, você não cai na grama. Se for como os homens de Davi, você cai no
ribeiro de Besor.
Não se sinta mal
se você nunca ouviu falar do lugar. A maioria nunca ouviu; contudo, mais
pessoas precisam conhecê-lo. A narrativa sobre o ribeiro de Besor merece um
lugar na prateleira da biblioteca dos esgotados. Ela fala palavras doces ao
coração cansado.
A história surge
das ruínas de Ziclague. Como vimos, Davi e seus 600 soldados voltam da guerra
contra os filisteus e encontram a destruição total. Um bando de invasores
amalequitas passou pela aldeia, saqueou-a e levou as mulheres e crianças como
reféns. A dor dos homens se converte em raiva, não contra os amalequitas, mas
contra Davi. Afinal, não foi ele que os levou para a batalha? Não foi ele que
deixou as mulheres e crianças sem proteção? Não é ele que leva a culpa? Então
ele precisa morrer. Assim, eles começam a pegar pedras.
O que mais é novo?
Davi está ficando acostumado com tal tratamento. Sua família ignorou-o. Saul
ficou com raiva dele. E agora o exército de Davi, que, se você se lembra, o
procurou (e não o contrário) se voltou contra ele. Davi é um psicopata em
desenvolvimento, rejeitado por todo círculo social importante em sua vida. Esse
talvez fosse seu pior momento.
Mas ele o
transforma em um dos melhores.
Enquanto 600
homens alimentam sua raiva, Davi busca seu Deus. "Davi, porém,
fortaleceu-se no SENHOR, no seu Deus" (1 Samuel 30:6).
Como é essencial
que aprendamos a fazer o mesmo! Sistemas de apoio nem sempre apóiam. Amigos nem
sempre são amigos. Pastores podem desviar-se do essencial e as igrejas perdem o
contato. Quando ninguém pode ajudar, temos de fazer o que Davi faz aqui. Ele se
volta para Deus.
"Devo
perseguir esse bando de invasores? Irei alcançá-los?"
"Persiga-os; é certo que você os alcançará e conseguirá
libertar os prisioneiros" (30:8).
(Eu costumava
acreditar que somente os santos podiam conversar assim com Deus. Estou
começando a achar que Deus conversa deste modo com qualquer pessoa e que santos
são os que aceitam sua oferta.)
Recém-comissionado, Davi redireciona a raiva de seus homens para o inimigo.
Eles começam a perseguir os amalequitas. Lembre-se do cansaço dos homens. Eles
ainda trazem a poeira da estrada depois de uma longa campanha e não sufocaram
totalmente a raiva que sentem de Davi. Eles não conhecem o esconderijo dos
amalequitas, e, se não fosse por amor aos seus entes queridos, talvez
desistissem.
Na verdade, 200
desistem. O exército chega a um ribeiro chamado Besor e eles descem dos
cavalos. Os soldados entram no riacho e jogam água no rosto, afundam os dedos
dos pés na lama fria e se esticam na grama. Ouvindo a ordem de que sigam em
frente, 200 preferem descansar. "Continuem sem nós", eles dizem.
Até que
ponto uma pessoa precisa ficar cansada para abandonar a busca de sua própria
família?
A igreja tem
seu quorum de tais pessoas. Pessoas boas. Pessoas tementes a Deus. Há apenas
horas ou anos, elas marchavam com muita determinação. Mas agora a fadiga as
consome. Elas estão exaustas. Tão esgotadas e cansadas que não conseguem reunir
forças para salvar os do mesmo sangue. A idade avançada roubou-lhes o ar. Ou
talvez tenha sido uma série de derrotas de tirar o fôlego. O divórcio pode
levá-lo ao ribeiro. O vício também. Seja qual for a razão, a igreja tem sua
cota de pessoas que simplesmente se sentam e descansam.
E a igreja precisa
decidir. O que fazemos com as pessoas que estão no ribeiro de Besor? Devemos
repreendê-las? Devemos humilhá-las? Devemos dar-lhes um descanso mas contar os
minutos? Ou fazemos o que Davi fez? Davi deixou que ficassem.
Ele e os 400
guerreiros restantes recomeçam a perseguição. Eles se precipitam cada vez mais,
ficando mais desanimados a cada duna de areia pela qual passam. Os amalequitas
estão muito à frente e não deixaram pistas. Mas, então, Davi tira a sorte
grande. "Encontraram um egípcio no campo e o trouxeram a Davi. Deram-lhe
água e comida" (30:11).
O egípcio é um
servo inválido que pesa mais do que vale, por isso os amalequitas o deixaram
passar fome no deserto. Os homens de Davi cuidam dele com figos e uvas passas
até ele se recuperar e pedem que o servo os leve até o acampamento de seus
velhos amigos. Ele fica feliz em poder fazer um favor.
Davi e seus homens
vão para cima do inimigo como gaviões sobre ratos. Cada mulher e cada criança
israelitas são resgatadas. Cada amalequita ou cai morto ou foge, deixando
despojos preciosos para trás. Davi passa de bode expiatório a herói, e a
algazarra e a gritaria começam.
O auge da
história, no entanto, ainda está por vir. Para sentir toda a força dela,
imagine os pensamentos de alguns dos personagens dessa história.
As esposas
resgatadas. Você simplesmente foi arrancada de sua casa e arrastada pelo
deserto. Temia por sua vida e agarrava seus filhos. Então, em um belo dia, os
mocinhos invadem o acampamento. Braços fortes erguem-na e colocam-na diante da
corcova de um camelo.Você agradece a Deus pelo grupo de elite da polícia que a
resgatou e começa a procurar por seu marido no rosto dos soldados.
— Querido —
você grita. — Querido! Onde você está? Aquele que a resgata puxa as rédeas do
camelo para ele parar.
— Uh — ele
começa — uh... seu benzinho ficou no acampamento.
— Ele o quê?
— Ele ficou com os
rapazes no ribeiro de Besor.
Não sei se
as mulheres hebréias tinham rolos de macarrão, mas, se tinham, poderiam começar
a usá-los nesse momento.
— Besor, é? Vou
lhe dizer quem vai ficar no ribeiro.
A equipe de
resgate. Quando Davi chamou, você arriscou sua vida. Agora, com a vitória na
mão, você volta para o ribeiro de Besor. Chega ao topo da cordilheira que dá
vista para o acampamento e vê os 200 homens lá embaixo.
— Seus parasitas!
Enquanto você
lutava, eles dormiam. Você foi para a batalha; eles foram para matinês e
massagistas. Eles encaçaparam 18 bolas e ficaram até tarde jogando pôquer.
Talvez você
se sinta como alguns dos homens de Davi se sentiram: "Uma vez que não
saíram conosco, não repartiremos com eles os bens que recuperamos. No entanto,
cada um poderá pegar sua mulher e seus filhos" (30:22).
Esposas
resgatadas: irritadas.
Resgatadores:
ressentidos.
E os 200
homens que descansaram? Os vermes têm mais auto-estima. Eles sentem-se tão
másculos quanto uma toalhinha de renda.
Uma bomba
caseira feita de emoções é agitada, acesa e entregue a Davi. Eis como ele a
neutraliza:
Não façam
isso com o que o SENHOR nos deu. Ele nos protegeu e entregou em nossas mãos os
bandidos que vieram contra nós. Quem concordará com o que vocês estão dizendo?
A parte de quem ficou com a bagagem será a mesma de quem foi à batalha. Todos
receberão partes iguais (30:23,24)
Observe as
palavras de Davi: ele refere-se a quem "ficou com a bagagem" — como
se esse fosse o trabalho deles. Eles não pediram para guardar os suprimentos;
queriam descansar. Mas Davi dignifica a decisão deles de ficar.
Davi fez
muitas coisas importantes em sua vida. Ele fez muitas coisas insensatas em sua
vida. Mas talvez a mais nobre tenha sido essa ação raramente discutida: ele
honrou os soldados cansados no ribeiro de Besor. Não há problema algum em
descansar. Jesus luta quando você não pode.
Algum dia, alguém
lerá o que Davi fez e chamará a igreja deles de a Congregação junto ao ribeiro
de Besor. Não é isso que a igreja tem por objetivo ser? Um lugar para que os
soldados recuperem suas forças?
Em seu maravilhoso livro
sobre Davi, Transpondo Muralhas, Eugene Peterson fala de uma amiga que às vezes
assina suas cartas com "Um abraço no ribeiro de Besor".1 Eu
pergunto-me quantas pessoas poderiam fazer o mesmo. Estão cansadas demais para
lutar. Envergonhadas demais para reclamar. Enquanto outros declaram vitória, os
cansados ficam sentados em silêncio. Quantos ficam sentados junto ao ribeiro de
Besor?
Se você estiver
listado entre eles, aqui está o que você precisa saber: não há problema algum
em descansar. Jesus é seu Davi.
Você está cansado?
Tome fôlego. Você é forte? Deixe o julgamento para os cansados.
Ele luta quando
você não pode. Ele vai aonde você não pode ir. Ele não fica nervoso se você
fica sentado. Não foi ele que fez o convite: "Venham comigo para um lugar
deserto e descansem um pouco" (Marcos 6:31)?
O ribeiro de Besor
abençoa o descanso.
O ribeiro de Besor
também adverte contra a arrogância. Davi sabia que a vitória era um presente.
Lembremo-nos da mesma coisa. A salvação vem como o egípcio no deserto, uma
agradável surpresa que aparece no caminho. Não obtida. Não merecida. Quem são
os fortes para criticar os cansados?
Você está cansado?
Tome fôlego. Precisamos de sua força.
Você é forte?
Deixe o julgamento para os cansados. E provável que você precise cair em cheio.
E, quando cair, o ribeiro de Besor é uma boa história para se conhecer.
Extraído da obra
"Derrubando Golias", de Max Lucado.
Foto:(Reprodução Internet).



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