A Doce Sabedoria de Abigail - Esposa do Rei Davi
Ernest Gordon geme na cela dos
condenados à morte de Chungkai, em Burma. Ele ouve os lamentos dos que estão
agonizando e sente o mau cheiro dos mortos. O calor impiedoso da selva queima
sua pele e seca sua garganta. Se ele tivesse força, poderia envolver sua coxa
esquelética com uma mão. Mas ele não tem energia nem interesse. A difteria
levou ambas as coisas; ele não pode andar; nem consegue sentir o corpo. Divide
um beliche com moscas e percevejos e espera uma morte solitária em um campo
para prisioneiros de guerra no Japão.
Como a guerra foi
dura com ele! Alistou-se para a 2a Guerra Mundial com seus vinte e poucos anos,
um robusto escocês das regiões montanhosas, trajando as cores típicas da
Brigada Sutherland. Mas então vieram a captura pelos japoneses, meses de
trabalho pesado na selva, surras diárias e a morte lenta provocada pela fome. A
Escócia parece distante para sempre. A civilidade, ainda mais.
Os soldados das
Forças Aliadas comportam-se como bárbaros, furtando uns dos outros, roubando de
colegas que estão quase morrendo, lutando por restos de comida. Os encarregados
da cozinha racionam os alimentos para que tenham mais para eles mesmos. A lei
da selva tornou-se a lei do campo.
Gordon está feliz
em dar adeus. Morrer por estar doente é algo que supera a vida em Chungkai. Mas
então algo maravilhoso acontece. Dois novos prisioneiros, ainda animados pela
esperança, são transferidos para o campo. Embora também estejam doentes e
fracos, eles atentam para um código superior. Compartilham suas refeições
escassas e voluntariam-se para trabalhos extras. Limpam as úlceras de Gordon e
massageiam-lhe as pernas atrofiadas. Dão nele o primeiro banho em seis semanas.
A força de Gordon aos poucos volta e, com ela, sua dignidade.
A bondade desses
homens passa a ser contagiante, e Gordon contrai essa doença. Ele começa a
tratar dos doentes e a dividir suas porções de comida. Ele até abre mão do
pouco que tem. Outros soldados fazem o mesmo. Com o passar do tempo, o clima do
campo acalma-se e clareia. A renúncia toma o lugar do egoísmo. Soldados
realizam cultos de adoração e estudos bíblicos.
Vinte anos depois,
quando Gordon passou a servir como capelão da Universidade de Princeton, ele
descreveu a transformação com as seguintes palavras:
A morte ainda estava com a
gente — sem sombra de dúvida. Mas fomos, aos poucos, sendo libertados de suas
garras destrutivas... Egoísmo, ódio e orgulho eram sentimentos contrários à
vida. Amor... abnegação... e fé, por outro lado, eram a essência da vida...
dádivas de Deus para os homens... A última palavra não mais era da morte em
Chungkai.
Egoísmo, ódio e
orgulho — você não precisa ir a um campo de prisioneiros de guerra para
encontrá-los. Um albergue de estudantes é um bom exemplo. Assim como a sala de
reunião da diretoria de uma empresa ou o quarto de um casal ou um local afastado
de um município. O código da selva está vivo e presente. Cada um por si. Agarre
o que puder e guarde tudo o que agarrar. A sobrevivência dos mais aptos.
O código contamina
seu mundo? Os pronomes possessivos pessoais dominam a linguagem de seu círculo
social? Minha carreira, meus sonhos, minhas coisas. Quero que as coisas sejam
do meu jeito no meu tempo. Se isso acontece, você sabe como esse gigante pode
ser cruel. Contudo, de vez em quando, um diamante brilha no meio da lama. Um
camarada reparte coisas, um soldado se preocupa, ou Abigail, a maravilhosa
Abigail, aparece em seu caminho.
Ela viveu na época
de Davi e foi casada com Nabal, cujo nome significa "tolo" em
hebraico. A vida de Nabal fez jus à definição de seu nome.
Pense nele como o
Saddam Hussein da região. Ele tinha gados e ovelhas e se orgulhava de ambos.
Mantinha a adega cheia, a vida amorosa a pleno vapor e rodava por aí em uma
enorme limusine. Ocupava lugares nas primeiras filas durante as atividades
esportivas, voava em um jato último modelo e estava sempre dando um pulinho em
Las Vegas para passar um final de semana em grande estilo. Meia dúzia de
seguranças grandalhões o acompanhavam onde quer que fosse.
Nabal precisava de
proteção. Ele era "rude e mau — um verdadeiro pitbull, descendente de
Calebe... Ele é um homem tão mau que ninguém consegue conversar com ele"
1Samuel 25:3;17.2 Aprendeu a lidar com pessoas no zoológico local. Nunca
conheceu uma pessoa com quem não pudesse se irritar ou um relacionamento que
não pudesse estragar. O mundo de Nabal girava em torno de uma pessoa — Nabal.
Ele não devia nada a ninguém e ria da idéia de dividir coisas com quem quer que
fosse.
Principalmente com
Davi.
Davi fazia o papel
de Robin Hood no deserto. Ele e seus 600 soldados protegiam os fazendeiros e
pastores contra bandidos e beduínos. Israel não tinha polícia rodoviária ou
força policial, por isso Davi e seus homens valentes supriam uma necessidade
específica no campo. Eles fizeram a proteção com tanta eficiência que levaram
um dos pastores de Nabal a dizer: "Dia e noite eles eram como um muro ao
nosso redor, durante todo o tempo em que estivemos com eles cuidando de nossas
ovelhas" (25:16).
Davi e Nabal
coabitavam o mesmo território com a harmonia de dois touros no mesmo pasto.
Ambos eram fortes e cabeças-duras. Era apenas uma questão de tempo para que
eles entrassem em conflito.
Os problemas
começaram a ferver depois da colheita. Com as ovelhas tosquiadas e o feno
recolhido, era hora de assar o pão, assar o cordeiro e derramar o vinho; de dar
um tempo aos arados e rebanhos e desfrutar do fruto do trabalho. Pelo que
entendemos na história, os homens de Nabal estavam fazendo exatamente isso.
Davi fica sabendo
da festança e acha que seus homens merecem um convite. Afinal, eles protegeram
as colheitas e ovelhas do homem, patrulharam as colinas e defenderam os vales.
Eles merecem um pouco da generosidade. Davi envia dez homens a Nabal com o
seguinte pedido: "Estamos vindo em época de festa.Por favor, dê a nós,
seus servos, e a seu filho Davi o que puder" (25:8).
Rude, Nabal zomba
da idéia:
Quem é Davi? Quem é esse filho
de Jessé? Hoje em dia muitos servos estão fugindo de seus senhores. Por que
deveria eu pegar meu pão e minha água e a carne do gado que abati para meus
tosquiadores, e dá-los a homens que vêm não se sabe de onde? (25:10,11).
Nabal finge nunca
ter ouvido falar de Davi, equiparando-o a servos fugitivos e vagabundos. Tal
insolência enfurece os mensageiros, que dão as costas e voltam às pressas para dar
o relatório completo a Davi.
Davi não precisa
ouvir a notícia duas vezes. Ordena aos homens que formem um bando armado. Ou,
mais precisamente: "Peguem suas espadas!" (25:12).
Quatrocentos
homens reúnem-se e partem. Olhos fixos. Narinas dilatadas. Lábios resmungando.
Testosterona à flor da pele. Davi e suas tropas vêm com tudo contra Nabal, o
canalha, que, distraidamente, bebe cerveja e come churrasco com seus companheiros.
A estrada estronda
enquanto Davi resmunga: "Que Deus castigue Davi, e que o faça com muita
severidade, caso até a manhã eu deixe vivo um só do sexo masculino de todos os
que pertencem a Nabal!" (25:22).
Espere aí. É o
bangue-bangue no Oriente Antigo!
Então, de repente,
surge a beleza. Uma margarida ergue-se no deserto; um cisne pousa no matadouro;
um ligeiro perfume paira pelo vestiário masculino. Abigail, esposa de Nabal,
aparece no caminho. Enquanto ele é
bruto e mesquinho, ela é "inteligente e bonita" (25:3).
Inteligência e
beleza. Abigail põe ambas para funcionar. Quando fica sabendo da resposta
grosseira de Nabal, ela põe-se em ação. Sem falar com o marido, ela ajunta
presentes e corre para interceptar Davi. Enquanto Davi e seus homens descem um
desfiladeiro, ela assumiu sua posição, munida de "200 pães, duas vasilhas
de couro cheias de vinho, cinco ovelhas preparadas, cinco medidas de grãos
torrados, 100 bolos de uvas passas e 200 bolos de figos prensados — e os
carregou em jumentos" (25:18).
Quatrocentos
homens puxam as rédeas dos cavalos. Alguns ficam boquiabertos diante da comida;
outros ficam bobos diante da mulher. Ela é bonita e cozinha bem, uma combinação
que detém qualquer exército. (Imagine uma loira de fazer um homem virar o
pescoço aparecendo no campo de treinamento de recrutas com um caminhão cheio de
hambúrgueres e sorvete.)
Abigail não é
boba. Ela sabe da importância do momento. Ela aparece como a última barreira
entre sua família e a morte certa. Caindo aos pés de Davi, ela faz um apelo
digno de um parágrafo nas Escrituras: "Meu senhor, a culpa é toda minha.
Por favor, permita que tua serva te fale; ouve o que ela tem a dizer"
(25:24).
Ela não defende
Nabal, mas concorda que ele é um canalha. Ela não pede justiça, mas perdão,
aceitando a culpa quando não merece ser culpada de nada. "Esquece, eu te
suplico, a ofensa de tua serva" (25:28). Ela oferece os presentes de sua
casa e insiste para que Davi deixe Nabal nas mãos de Deus e evite o peso morto
do remorso.
Suas palavras
chegam a Davi assim como o sol de verão ao sorvete. Ele se derrete.
Bendito seja o SENHOR, o Deus
de Israel, que hoje a enviou ao meu encontro... pelo seu bom senso... Se você
não tivesse vindo depressa encontrar-me, nem um só ser do sexo masculino
pertencente a Nabal teria sido deixado vivo... Ouvi o que você disse e
atenderei ao seu pedido (25:32-35).
Davi volta para o
acampamento. Abigail volta para Nabal. Uma vez que o encontra extremamente
bêbado para conversar, ela espera até a manhã seguinte para descrever-lhe o
quão perto Davi chegou do acampamento e como Nabal esteve perto da
morte."De manhã... ele sofreu um ataque e ficou paralisado como uma pedra.
Cerca de dez dias depois, o SENHOR feriu Nabal e ele morreu" (25:37-38).
Quando fica
sabendo da morte de Nabal e da súbita disponibilidade de Abigail, Davi agradece
a Deus pela primeira notícia e se aproveita da segunda. Não conseguindo tirar
da cabeça a lembrança da linda mulher no meio da estrada, ele a pede em
casamento e ela aceita. Davi consegue uma nova esposa; Abigail, um novo
lar. E, com isso, temos um importante princípio: a beleza pode vencer a
barbárie.
A mansidão salvou
a pátria naquele dia. A delicadeza de Abigail reverteu um rio de raiva. A
humildade tem tal poder. Desculpas podem desarmar discussões. A contrição pode
neutralizar a raiva. Gestos de paz trazem mais bem do que alabardas. "A
língua branda quebra até ossos" (Provérbios 25:15).
Abigail ensina
muita coisa: o poder contagiante da bondade; a força de um bom coração. Sua
maior lição, no entanto, é tirar nossos olhos de sua beleza e colocá-los na de
outra pessoa. Ela tira nossos pensamentos de um caminho rural e os leva para
uma cruz em Jerusalém. Abigail nunca conheceu Jesus. Ela viveu 1.000 anos antes
do sacrifício de Jesus. Não obstante, sua história prefigura a vida de Jesus.
Abigail colocou-se
entre Davi e Nabal. Jesus colocou-se entre Deus e nós. Abigail ofereceu-se para
ser castigada pelos pecados de Nabal.
Jesus permitiu que
o céu o castigasse pelos seus e meus pecados. Abigail desviou a raiva de Davi.
Cristo não lhe serviu de proteção contra a raiva de Deus?
Ele era nosso
"mediador, entre Deus e os homens; o homem Cristo Jesus, o qual se
entregou a si mesmo como resgate por todos" (1 Timóteo 2:5-6). Quem é o
mediador senão aquele que se coloca no meio de alguma coisa? E o que Cristo fez
senão colocar-se entre a raiva de Deus e nosso castigo? Cristo interceptou a
ira do céu.
"Cristo viveu
a vida que não poderíamos viver e levou o castigo que não poderíamos levar para
oferecer a esperança a que não podemos resistir."
Algo um pouco
parecido aconteceu no campo em Chungkai. Certa noite, depois da inspeção, um
guarda japonês anunciou que faltava uma pá. O oficial manteve as Forças Aliadas
em formação, insistindo que alguém havia roubado a pá. Gritando em um inglês
mal falado, ele exigiu que o culpado desse um passo à frente. Pôs seu rifle no
ombro, pronto para matar um prisioneiro por vez até que a confissão fosse
feita.
Um soldado escocês
saiu da formação, ficou firmemente em posição de sentido e disse: "Fui
eu". O oficial descarregou sua raiva e bateu no homem até ele morrer.
Quando o guarda finalmente se cansou, os prisioneiros pegaram o corpo do homem
e suas ferramentas e voltaram para o campo. Só então as pás foram recontadas. O
soldado japonês cometera um erro. No final das contas, nenhuma pá estava faltando.
Quem faz isso? Que
tipo de pessoa assumiria a culpa de algo que não fez?
Quando você
encontrar tal substantivo, associe-o a Jesus. "O SENHOR fez cair sobre ele
a iniqüidade de todos nós" (Isaías 53:6). Deus tratou seu Filho inocente
como a raça humana culpada, seu Santo como um canalha mentiroso, sua Abigail
como um Nabal.
Cristo viveu a
vida que não poderíamos viver e levou o castigo que não poderíamos levar para
oferecer a esperança a que não podemos resistir. Seu sacrifício pede que façamos
essa pergunta: se ele tanto nos amou, não podemos amar uns aos outros? Tendo
sido perdoados, não podemos perdoar? Tendo festejado à mesa da graça, não
podemos compartilhar algumas migalhas de pão?
"Amados, visto que Deus
assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros" (1 João 4:11).
Você acha seu mundo de
Nabal difícil de suportar? Então faça o que Davi fez: pare de encarar Nabal.
Volva seus olhos para Cristo. Olhe mais para o Mediador e menos para os
encrenqueiros.
"Não se
deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem" (Romanos 12:21). Um
prisioneiro pode mudar um campo. Uma Abigail pode salvar uma família. Seja a
beleza em meio às suas feras e veja o que acontece.
Extraído da obra
"Derrubando Golias", de Max Lucado.o - pág. 40-51
Foto: (Reprodução Internet)


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