Por Que Jesus ia a Festas?
Imagine seis
homens caminhando por um caminho estreito. O amanhecer dourado irrompe detrás
deles, fazendo que se alonguem suas sombras para frente. O frescor da madrugada
obriga a cingir firmemente as roupas. A grama resplandece pelo efeito dos
diamantes de orvalho. Os rostos dos homens têm veemência, mas são comuns. Seu
líder é seguro, mas desconhecido. O chamam Rabi; mais parece com um operário. E
está certo que seja assim, pois passou muito mais tempo construindo que
ensinando. Mas esta semana começou o ensino.
Para onde se
dirigem? Ao templo para adorar? À sinagoga para ensinar? Às colinas para orar?
Não lhes disse, mas cada um tem sua própria idéia a respeito. João e André
esperam que os leve ao deserto. Ali foi onde os levou seu mestre anterior. João
Batista os guiava às colinas desérticas e oravam muitas horas. Jejuavam vários
dias.
Anelavam a
chegada do Messias. E agora, o Messias está aqui. Certamente Ele fará o mesmo.
Todos sabem que o
mandamento é ser um homem santo.Todos sabem que o negar-se a si mesmo é o
primeiro passo para a santidade. Com toda certeza a voz de Deus é ouvida
primeiro pelos eremitas. Jesus nos leva à solidão. Pelo menos é o que pensam
João e André. Pedro tem uma outra opinião. Pedro é um homem de ação. Do tipo de
pessoa que arregaça as mangas. Dos que se levantam e falam. Agrada-lhe a idéia
de ir para algum lugar. O povo de Deus necessita estar em movimento. Talvez nos
leve a algum lugar para pregar... pensa consigo mesmo. E ao caminhar, Pedro
rabisca seu próprio sermão, caso Jesus necessite de um descanso. Natanael
estaria em desacordo. Vem e vê, tinha convidado ao seu amigo Felipe. De modo
que veio. E Natanael gostou do que viu. Em Jesus viu um homem de pensamento
profundo. Um homem de meditação. Um coração para a contemplação. Um homem que,
como Natanael, tinha passado horas sob a figueira refletindo sobre os mistérios
da vida. Natanael estava convencido que Jesus os levava a um lugar onde
meditar. Uma silenciosa casa numa distante montanha, para lá nos dirigimos.
E a respeito de
Felipe? O que pensava ele? Era o único apóstolo de nome gentio. Quando os
gregos vieram procurando Jesus, Felipe foi a pessoa da qual se aproximaram.
Possivelmente tivesse contatos gregos. Talvez tivesse um coração para os
gentios. Por ser assim, esperava que esta travessia fosse uma viagem
missionária... fora da Galiléia. Fora da Judéia. Entrando numa terra distante.
Aconteceu essa
especulação? Quem sabe? Sei o que acontece hoje em dia. Sei que os seguidores
de Jesus frequentemente se alistam com elevadas aspirações e expectativas. Os
discípulos entram nas fileiras com programas não verbalizados, mas sentidos.
Lábios prontos para pregar, aos milhares. Olhos fixos em costas estrangeiras.
Sei para onde Jesus vai me levar, proclamam os jovens discípulos, e assim eles,
igual aos primeiros cinco, o seguem.
E eles, igual aos
primeiros cinco, ficam surpreendidos. Talvez foi André quem perguntou. Ou talvez
foi Pedro. É possível que todos tenham se dirigido a Jesus. Mas aposto que em
nenhum momento da viagem os discípulos expressaram suas suposições.
— Então, Rabi, para onde nos
conduzes? Para o deserto?
— Não — opina outro —, nos leva
ao templo.
— Ao templo? — desafia um
terceiro —. Nos dirigimos para onde estão os gentios! Depois se gera um coro de
confusão que somente acaba ao Jesus levantar sua mão e dizer com suavidade:
— Vamos a uma boda.
Silêncio. João e André se
entreolham.
— Uma boda? — dizem —. João
Batista jamais teria assistido a um casamento. Ora, se ali se bebe, há risos e
danças...
— E barulho! — aponta Felipe —.
Como se pode meditar num casamento barulhento?
— Ou pregar? — agrega Pedro.
— Por que temos que ir a um casamento?
Boa pergunta. Por
que Jesus levaria a seus seguidores, em sua primeira viagem, a uma festa? Não
tinham trabalho para realizar? não tinha princípios para ensinar? Não era
limitado o seu tempo? Como podia caber uma boda em seu propósito na terra?
Por que Jesus foi ao casamento? A resposta? Está no segundo
versículo de João 2 (o versículo do qual não pude passar). "E foi também
convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas". Quando os noivos
fizeram a lista de convidados, incluíram o nome de Jesus. E quando Jesus se
apresentou com uma meia dúzia de amigos, não foi revogado o convite. Quem quer
que fosse o anfitrião dessa festa, estava feliz de que Jesus estivesse
presente.
— Se certifiquem de escrever o
nome de Jesus na lista —talvez tivesse dito —. Ele verdadeiramente dá vida a
uma festa.
Jesus não foi
convidado por ser uma celebridade. Ainda não o era. O convite não foi motivado
pelos milagres. Ainda não tinha feito nenhum. Por que foi convidado?
Acho que foi porque o queriam.
Grande coisa? Eu acho que sim. Acho que é significativo que as pessoas comuns
de um pequeno povoado desfrutasse de estar com Jesus. Creio que vale a pena
destacar que o Todo Poderoso não se comportava de maneira arrogante. O Santo
não era santarrão. Aquele que tudo sabia não era um sabichão. O que fez as
estrelas não tinha a cabeça metida nelas. Aquele que possui tudo o que há na
terra nunca a percorreu com altivez. Nunca. Podia tê-lo feito. Certamente
poderia tê-lo feito!
Poderia ter sido
dos que deixam escapar nomes ao descuido: "Alguma vez te falei da ocasião
em que Moisés e eu subimos a montanha?".
Poderia ter sido
jactancioso: "Escuta, desejas que te tele-transporte para o século
vinte?".
Poderia ter sido
um convencido: "Sei o que estás pensando. Quer que demonstre?".
Poderia ter sido altaneiro e
soberbo: "Possuo algumas terras em Júpiter...".
Jesus poderia ter
sido todas essas coisas, porém não foi. Seu propósito não era jactar-se, senão
somente acudir. Esforçou-se sobremaneira por ser tão humano quanto qualquer
outro. Não necessitava estudar e ainda assim ia à sinagoga. Não tinha
necessidade de ingressos e ainda assim trabalhava numa oficina. Conhecia a
comunhão com os anjos e escutava as harpas do céu, e ainda assim assistia a
festas organizadas por cobradores de impostos. E sobre suas costas pesava o
desafio de redimir a criação, e ainda assim dedicou o tempo de percorrer a pé
os cento e quarenta e quatro quilômetros que separavam Jericó de Caná para
assistir a uma boda.
Como resultado,
as pessoas o queriam. Obviamente que havia quem se burlasse de suas
declarações. O chamavam blasfemo, mas nunca o acusaram de fanfarrão. O acusaram
de heresia, mas nunca de arrogância. O culparam de radical, mas nunca de
inacessível. Não existe indício de que alguma vez tenha usado sua condição
celestial para ganância pessoal. Jamais. Simplesmente você não tem a
impressão de que seus vizinhos tenham se cansado de sua arrogância e
perguntassem: "Pois bem, quem você se acha que é?". Sua fé fazia com
que o amassem, não que o detestassem.
Tomara que a nossa produzisse
mesmo efeito!
De onde tiramos a
idéia de que um bom cristão é um cristão solene? Quem iniciou o rumor de que o
que identifica um discípulo é uma cara comprida? Como criamos esta idéia de que
os verdadeiramente dotados são os de coração pesaroso?
Posso declarar
uma opinião que talvez produza um levantar de sobrancelha? Posso dizer por que
acho que Jesus foi ao casamento? Penso que foi ao casamento para... fique
firme, preste atenção ao que falo, permita-me que o diga antes que esquente o
breu e depene a galinha... Acredito que Jesus foi à boda para divertir-se.
Considere isso. Tinha sido uma temporada difícil. Quarenta dias no deserto.
Nada de comida nem água. Uma confrontação com o diabo. Uma semana dedicada à
iniciação de uns novatos galileus. Uma mudança de trabalho. Saiu de casa. Não
tem sido fácil. Um descanso seria bem-vindo. Uma boa comida com bom vinho,
acompanhado de bons amigos... pois bem, parece bastante agradável. Assim que
para lá se dirigem.
Seu propósito não
era o de converter a água em vinho. Isso foi um favor para seus amigos. Seu
propósito não era o de demonstrar poder. O anfitrião do casamento nem sequer
soube o que Jesus tinha feito. Seu propósito não era o de pregar. Não consta
que tivesse havido um sermão.
Realmente, sobra
só um motivo. Diversão. Jesus foi ao casamento porque queria aquela gente,
gostava da comida e, o céu não permita, até pode ser que tenha desejado dar um
par de voltas dançando com a noiva. (Depois de tudo, Ele mesmo está preparado
para uma grande boda. Será que queria praticar?).
Assim que,
perdoem-me, diácono Pó-Seco e irmã Coração-Triste. Lamento arruinar sua marcha
fúnebre, mas Jesus era uma pessoa amada. E seus discípulos devem tê-lo sido
também. Não falo de libertinagem, bebedeira e adultério. Não apóio a
transigência, a grosseria nem a obscenidade. Sou somente um cruzado em favor da
liberdade de desfrutar de uma boa piada, dar vida a uma festa enfadonha e
apreciar uma noite divertida. Talvez estes pensamentos te surpreendam. A mim
também. Não acuso Jesus de ser amante de festas. Mas ele era. Seus adversários
o acusavam de comer demasiado, beber demasiado e de andar com o tipo menos
adequado de pessoas! (Veja Mateus 11:19). Devo confessar: faz tempo que não me
acusam de divertir-me demasiado. E você?
Costumávamos ser bons nisso. O
que aconteceu? Que aconteceu com o gozo puro e o riso sonoro? Será que nossas
gravatas nos enforcam? Será que nossos diplomas nos dignificam? Será que os
bancos da igreja nos deixam duros como varas?
Não seria
possível que aprendamos a ser crianças outra vez...Tragam as bolinhas de
gude... (e qual é se os sapatos se estragam?).
Tragam o bastão e a luva de
basebol... (e daí se depois os músculos doem?).
Tragam os doces... (e daí se
grudam nos dentes?).Volte a ser criança. Seja simpático. Ria. Molhe sua bolacha
no leite. Durma uma sesta. Peça perdão se fere alguém. Persiga uma borboleta.
Volte a ser criança. Relaxe. Não tem pessoas para abraçar nem pedras para pular
nem lábios para beijar? Alguém deve rir do coelho Pernalonga...
Por que não você?
Algum dia você aprenderá a pintar... Por que não fazê-lo agora? Algum dia será
aposentado... Por que não fazê-lo hoje? Não quero dizer aposentar-se do
trabalho, mas sim aposentar-se da atitude. Sinceramente, alguma vez as queixas
melhoraram um dia? Você tem pagado as contas com resmungos? Tem produzido
alguma mudança a preocupação pelo amanhã?
Deixe que outro controle o
mundo por um tempo. Jesus dedicou tempo para uma festa... Não deveríamos
fazê-lo nós também?
Extraído do livro Quando Deus
Sussurra o seu Nome, de Max Lucado.
Foto: (Reprodução Internet)



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